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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

BANZAI!!! - II!




Amiúde tenho protestado contra o verdadeiro maremoto de lançamentos que Makoto Kawabata e sua gang de japas psico-sônicos despejam sobre seus fãs ano após ano, de certa forma trivializando, ou até mesmo vilipendiando, o assombroso impacto de sua extravagante entidade polimórfica e comuna místico-musical, o anarco-transcendente Acid Mothers Temple. São catadupas de álbuns das infinitas encarnações do AMT por 34343231 selos diferentes a cada semestre, todos eles mais ou menos pertencentes a duas únicas vertentes estilísticas: colossais maelstrons elétricos de psicodelia over the top em maximum psych noise mode on ou então plácidas e narcolépticas sinfonias abissais de drones psicoativos mergulhadas em oceanos de bruma púrpura. Até que ponto, é a pergunta que se impõe, seria possível para Kawabata apresentar tonalidades novas a partir de uma paleta de apenas duas cores?

Não obstante, o filho da mãe, além da pretensão de bater Robert Fripp in his own game em termos de obscena voracidade mercantilista, é também talentoso as bloody'n'loony'n'spacy hell e, dessa forma, a cada carrada de discos perpetra pelo menos uma obra-prima de fazer o ouvinte desejar mergulhar num obnubilante turn on tune in drop out'timothylearyano' nos ignotos confins da sonic neverness para nunca mais retornar...



IAO Chant From The Cosmic Inferno (2005) é a quinta das sete sulfurosas emanações (em pouco mais de um ano...) já creditadas a mais recente entidade kawabática, o Acid Mothers Temple & The Cosmic Inferno; trata-se, em primeiríssimo lugar, de uma homenagem de nosso herói ao saudoso baterista Pierre Moerlen, falecido em 2005, e, por extensão, a todo o magnífico legado do Gong. Como de hábito em termos de Cosmic Inferno, o número de faixas é inversamente proporcional à ciclópica duração das mesmas: no caso em tela temos apenas uma, intitulada laconicamente OM Riff.

Bem... como descrever mais esse titânico monstro urdido pela mais insana das metalurgias sonoras alocadas no arquipélago do Sol Nascente? Tentemos à partida uma descrição por assim dizer objetiva:OM Riff desdobra em inacreditáveis 51 minutos de duração praticamente UM ÚNICO riff de guitarra e o esotérico coro IAO ZA EE ZAO MA EE MAO TA EE TAO da clássica Master Builder, peça registrada pelo Gong em You (1974), terceiro álbum da célebre trilogia anarco-patafísica de Zero the Hero. Isto posto, não sei consegui entender o que o nosso Grã-Ronin do estraçalhamento psíquico de garagem e seu séquito aprontaram dessa feita... os caras simplesmente viram e reviram do avesso o riff de Steve Hillage de todas as formas possíveis e imagináveis em jams avassaladoras e incontroláveis, mas também de alguma maneira inescrutável logram manter a integridade formal do original numa alquimia magistral, Futoshi Okano, Mitsuru Tabata e Koji Shimura estabelecendo uma propulsão contínua para que Kawabata e Hiroshi Higashi pulverizem o Universo com sua artilharia de guitarras esynths incandescentes; assim sendo, OM Riff é a um só tempo uma improvisação ad infinitum, arremessada nos páramos estelares da nebulosa derradeira do caos psyched out, e uma summa magnífica de toda a miríade de sensações e sonoridades do space rock, mantra hipnótico e troar aterrador numa mesma mandala multifacetada ricocheteando em reflexos invertidos na Arcana Diabolica, Gong, Hawkwind, Amon Düül II, Guru Guru e o ARCANO planando sobre quasares alucinógenos and setting the controls for the heart of the Sun. Sob as bênçãos lisérgico-cibernéticas de Makoto Allen e Daevid Kawabata, a rutilante espaçonave 'Acid Mothers Gong & The Radio Gnome Inferno' atravessa a singularidade gravitacional do espaço-tempo psicodélico na colisão cataclísmica de sistemas estelares gigantescos and so on...



Enfim, o que temos aqui é uma fascinante dissonância cognitiva: se cônscios estamos de que há 10 anos Kawabata malandramente recicla as mesmíssimas matrizes estéticas, de bom grado estamos dispostos a rei teradas vezes cair em seu logro, pois o nipônico Speed Guru, mesmo perpetrando algumas irrelevâncias no compasso industrial de sua produção discográfica, é ainda o mais brilhante magnetizador do fogo dos sonic gods de que se tem notícia this side of the galaxy. Afinal, quem mais consegue sintetizar com tanta classe, intensidade e conhecimento de causa o que de melhor foi feito na história do rock'n'roll?


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Alfredo RR de Sousa 

BANZAI!!! - II




Meus caríssimos confrades, em verdade vos digo, em bom, curto, castiço e escorreito português: FODEU...

... pois o que de todo parecia inconcebível enfim parece ter ocorrido: os limites extremos do que poderia ser feito em termos de rock’n’roll[ foram alcançados. É isto mesmo, senhoras e senhores: a derradeira fronteira foi transposta, rompeu-se a barragem do som, a obliteração sônica de todos os sentidos via  implacável devastação übber rockist foi levada a efeito. O grande culpado? Blame it on Makoto Kawabata,  Grã-Ronin do estraçalhamento psíquico de garagem, Shaman Warrior King dos báratros do pesadelo psicodélico e Custódio Transfinito dos Arcanos Sônicos do Apocalipse.


 Por ocasião do décimo aniversário de sua cria mais dileta, a anárquica comuna místico-musical Acid Mothers Temple & The Melting Paraíso U.F.O., Kawabata parecia um tanto quanto entediado com o facto de seu assombroso terremoto estético de estimação ter de certa forma assumido um contorno mais high profile (AMT high profile?!?!? Bem, talvez para [i]junkies[/i] terminais vagando pelos labirintos cibernéticos do Império do Sol Nascente, ou então para congêneres escandinavos hibernando n’alguma caverna gelada sob a sombra cônica do Sneffels...); assim sendo, decidiu bagunçar um pouco o coreto, arregimentando figuras egressas de formações como Boredoms, Ghost, Mainliner e Zeni Geva para formar o Acid Mothers Temple & The Cosmic Inferno. E o resultado é Just Another Band From The Cosmic Inferno (2005).

São duas faixas: a primeira, Trigger In Trigger Out (com 'somente' 20 minutos) é um maelstron de microfonia inclemente e brutalismo percussivo ao estilo das rajadas eletromagnéticos presentes em Electric Heavyland, ou seja, o terrorismo sonoro de rigueur que já caracterizava a faceta mais turbulenta da encarnação anterior do AMT; é portanto na segunda faixa, minhas senhoras e meus senhores, que o caldo entorna de vez...: com singelos 44 minutos de duração, They're Coming from the Cosmic Inferno desafia qualquer descrição ou análise; como já salientei, Kawabata e sua gang de propagadores de ruído patafísico abandonam as últimas paragens conhecidas do rock para precipitar-se numa ignota e ominosa nebulosa de caos, um massacre ultra/mega/hiper/meta/trans-psicodélico, descomunal, ciclópico e rigorosamente insano, sem um segundo sequer de pausa; não há, pois, aqueles interlúdios 'táticos' para que a peça volte à carga com mais intensidade depois, mas sim a banda trovejando ininterruptamente em 'full power flat out noise terror atack' mode ON. Confesso que por volta dos 25, 26 minutos a ‘coisa’ já havia me derrotado, deixando-me de todo prostrado, inerte e entorpecido, incapaz de esboçar qualquer reação, e assim submergindo em definitivo num oceano magmático de white noise oriundo do próprio Inferno. Trata-se, confrades, de ultraviolência sônico/sadomasoquista em aterrorizantes espasmos de crueldade e, em conseqüência e última instância, nazifascista...  é, quiçá esta seja exatamente a metáfora mais adequada: caso Heinrich Himmler, Reinhard Heydrich, Karl Maria Wiligut e Julius Evola fossem fanáticos por rock’n’roll e viciados em heroína, Just Another Band From The Cosmic Inferno decerto seria o álbum que registrariam ao cabo de uma delirante jornada embalada por toneladas de brow sugar e sanguinolentos rituais neopaganistas.


Se gostei? Hmmm... creio que esta questão poderia ser melhor respondida no âmbito da noção kantiana de ‘sublime’, isto é, fenômenos incomensuráveis à escala humana, que nos fascinam e horrorizam em grau máximo ao mesmo tempo; ou então, como diria o crítico musical Dominique Leone, a propósito, aliás, de outro petardo do grupo de Kawabata, e porventura de forma  mais sintética e eficaz: ”how much is too much?”


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Alfredo RR de Sousa 

terça-feira, 16 de julho de 2013

BANZAI!!! - I




Desde os idos de 1996, quando o guitarrista, enciclopédia ambulante de música weird e auto-proclamado guru patafísico japonês Makoto Kawabata, egresso de experiências delirantes com formações tais como Mainliner e Musica Transonic, decidiu criar a banda / comuna sônico-místico-transcendental Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. (Underground Freak Out), o universo vem sendo assolado por um abstruso maremoto cósmico de ultra-psicodelia psicótico-mind blowing de proporções absurdamente inauditas: Kawabata e sua impagável troupe de psycho-freaks (uma extravagante entidade polimórfica cujo número de integrantes varia entre 4 e 15 componentes) lograram, pois, resumir / reciclar / sublimar / expandir toda a multitentacular garage hermétique da psicodelia ao longo dos anos, levando à máxima perfeição um mister em que os filhos do Sol Nascente se revelam particularmente eficazes: o reprocessamento criativo de tradições culturais alienígenas.

Como descrever o mefistofélico sabbath sônico conjurado pelo AMT? Pensem numa espécie de usina nuclear musical, onde foram precipitados como combustíveis todo o krautrock de matriz psicodélica (Guru Guru, Ash Ra Tempel, Amon Düül II, Brainticket, Cosmic Jokers, etc.); ‘artefactos’ desarvorados da cena psych européia dos anos 60-70 (Le Stelle di Mario Schifano, Pärson Sound, Älgarnas Trädgård, Alrune Rod, Povl Dissing, etc.); os titãs transatlânticos da psicodelia estadunidense (de nomes notórios como Blue Cheer e Jimi Hendrix à monstruosidades terminais como Father Yod, Anal Magic & Rev. Dwight Frizzell, Cromagnon, etc.); anomalias britânicas da estirpe de Hapshash & The Coloured Coat, Deviants, etc.; a alquimia eletrônico-minimal de Terry Riley, Steve Reich e outros luminares. Considerada toda essa assombrosa plêiade de influências, tentem agora imaginar tudo isso levado às últimas conseqüências da desmesura sônica intergalática, arsenal esse ambientado em diversas formulações, que variam desde narcolépticos e gentis drones de corte folk-psicoativo a descomunais maelstrons elétricos encharcados de avassaladoras microfonias guitarrísticas over the top, assombrações apavorantes de teclados space rock em colapso nervoso e magma percussivo estraçalhante... can you dig it…? 


O álbum em tela - Electric Heavyland, lançado em 2002 pelo selo canadense Alien8 - tem sido considerado pelos mais refinados experts em AMT como a mais intensa e insana tempestade de desespero eletromagnético e devastação mastodôntica já urdida pela banda. Tal avaliação crítica não poderia ser, creio eu, mais precisa e acertada: o que temos aqui são 3 assombrosas, avassaladoras jams ultra/mega/hiper-psicodélicas, avalanches incontroláveis de white noise desfechadas por Kawabata formando walls of sound de energia vulcânica em estado magmático, ladeadas pelos a um só tempo lancinantes e hipnóticos space whispers de Cotton Casino, as devastadoras rajadas metálico-percussivas de Koizumi, a catatonia trovejante do baixo de Tsuyama e as espectrais muralhas alucinatórias de found sounds e efeitos eletrônicos produzidas pelos synths de Higashi e Casino. Descrever estas faixas em detalhe, tal como alguns resenhadores pateticamente tentaram fazer, me parece uma lide de todo insensata e improfícua, pois elas formam um continuum cuja coerência e significado tão somente se desvelam através de uma visão de conjunto. 

Enfim... that’s all, folks, mas com a velha e cautelosa dica de costume: é uma obra aconselhável apenas para os mais afeitos a turbulentos cataclismas sonoros, isto é, para maníacos dotados de ouvidos devidamente ‘formatados’ por anos e mais anos de experiência com mutilações sonoras da mais alta periculosidade e octanagem, não digais depois que não vos avisei!




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Alfredo RR de Sousa