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sábado, 20 de julho de 2013

French Black Metal / Parte II: Deathspell Omega


"Pois bem, que assim seja! Que minha guerra contra o homem se ternize, já que cada um de nos reconhece no outro sua própria degradação... Já que somos ambos inimigos mortais. Quer eu deva conseguir uma vitória desastrosa ou sucumbir, o combate será belo; eu, sozinho contra a humanidade"

Conde de Lautreamont
Os Cantos de Maldoror

Banda: Deathspell Omega

Genero: Black Metal / Death Metal / Brutal Prog / Hate Music

Período de Atividade: 1998 / Atualmente


Formada no fim dos anos 90, oriundos da cidade de Poitiers o Deathspell Omega é a mais sólida e talvez a banda mais cavalar de toda a história do Black Metal. Musicalmente não existe muito o que dizer sobre eles: Imagine os blastebeats mais cavalares que se possa imaginar, uma excelência vocal que vai desde o tradicional gutural do estilo até vocais limpos, imponentes e majestosos. A qualidade instrumental não existe em nenhuma outra banda do gênero a banda consegue juntar influencias totalmente diversas do Black Metal norueguês, momentos  ambients, Doom Metal e pasme até momentos um tanto progressivos e jazzistas, embora sempre prontos para a guerra, sob uma pesada roupagem de metal extremo. Sem palhaçada, por favor, eu não estou falando de Symphonic Black Metal tipo Dimmu Borgir ou um Satyricon. Deathspell Omega é tão genial que conseguiu até pegar um elemento básico dessa lama em pelo menos um álbum teu e consertar: "Si Monumentum" possui corais... Gravações de corais ortodoxos das igrejas gregas e russas! Porra eu bati na mesa de emoção ao ouvir isso, juro, foi algo absolutamente imprescindível. Si Monumentum é realmente um álbum triste, genuinamente triste, Fas-ite tétrico e macabro e Paracletus intenso como se as estrelas estivessem se apagando no céu em uma velocidade inconcebivel. E friso que ainda existem os EPs monsrtuosos tais como Kenose e as gigantescas gigantescas faixas sempre na casa dos 20 minutos cada uma como "Mass Grave Aesthetics", "Chaining the katechon" e "Diabolus Abscontidus", todos musicalmente no mesmo nível de excelência.

Filosoficamente é a banda mais rebuscada que o Black Metal já conheceu. Como disse na introdução ao Black Metal Frances que escrevi na semana passada as bandas de black metal da França possuem essa estranha característica que remete Satan de John Milton: Para ter sentido depende justamente do cristianismo. E é no Deathspell Omega que esse dado cala mais fundo. Dito isto, se foi a febre que ocasionou os sonhos em Walter Gilman ou os sonhos que ocasionaram a febre, isso já não tem mais a menor importância  Na parte ideológica eu realmente não me identifico com essa banda, mas sei reconhecer o valor de um bom argumento quando o vejo pelo frente, e no que se refere a isso a banda é impecável  Auto-denominados como Satanistas Ortodoxos, é claro que falamos linguagens diferentes porem só de ver alguém abordando um universo tão surrado como o satanismo com grandes méritos intelectuais já é o suficiente para ao menos chamar minha atenção. Referencias a autores e filósofos malditos estão por toda parte, a fantasmagoria gótica e o surrealismo também. Peguemos por exemplo a maior referencia intelectual da banda, o surrealista francês Georges Bataille, figura emblemática no niilismo pós moderno, Bataille procurou na afirmação do individuo uma salvação para a prisão dos tempos modernos. E sua busca o conduziu pelos meandros obscuros da psicanalise e da literatura maldita. Pelas obras deste pensador, principalmente o seu celebre "A Literatura e o Mal" diversas influencias literárias de nomes como Emily Brontë, Baudelaire, Jules Michelet, William Blake, Sade, Proust, Kafka e Jean Genet se fazem presentes na banda. A literatura para Bataille "É comunicação, impõe uma lealdade, uma moral rigorosa.


Nada traduz melhor a banda do que esta rígida disciplina somada a necessidade de expressar uma mensagem até então escondida. Outras influencias da banda incluem o exegese bíblico, visto que são abundantes as passagens da tradução latina de São Jeronimo a celebre Vulgata encontradas nas músicas. Acenos gnósticos estão presentes no seu EP de nome "Kenose", cujo significado em grego antigo remete ao "esvaziamento divino" e foi uma doutrina do cristianismo primitivo apoiada por muitos autores gnósticos que predicava que uma vez que Jesus Cristo viveu entre os homens ele se 'esvaziou de sua energia divina' para lograr tal existência. Para alguns o exemplo do esvaziamento de Cristo se manifesta ao tirar de nossos corações tudo aquilo que nos prende ao mundo material (kenosis)". Por incrível que possa ser afirmar isso ao apoiar essas teorias o Deathspell Omega auto-proclamado satanista fica muito próximo do gnosticismo dos primeiros cristãos da era apostólica que viviam a kenose de auto-esvaziamento pois entendiam que a principal verdade por trás deste conceito é a ideia de abandonar um estilo de vida egocêntrico para adotar um estilo de vida altruísta. É fato então que sem o cristianismo o Deathspell Omega não iria se sustentar filosoficamente e esse deve ser o maior dilema do mundo para os satanistas porque por rebuscados que sejam seus argumentos e vigorosas aparentem ser as suas motivações eles nunca conseguem ir alem de uma simples inversão sem nunca criar ou mesmo destruir como faz o ateísmo restando apenas a possibilidade de reverter um odiado mas necessário inimigo.
Na sua estupenda trilogia que contem os álbuns "Si Monumentum Requires, Circumspice", "Fas-ite Maledecti In Ignem Aeternum" e "Paracletus" a banda explorou esse tema da metafisica do dualismo com vigor: Cada lançamento da trilogia representou um ente primordial, respectivamente: Deus, Satan e o ser humano dividido eternamente entre esses dois. Para a banda Deus é um ser em permanente exílio desde o momento da criação do universo, pois para faze-lo se desprendeu de grande parte de seu poder original, sendo um ser não onipotente como acreditam os crentes tradicionais, mas que apenas pode influenciar até certo ponto os acontecimentos, não podendo nem evita-los, nem modifica-los. Satan é a contraparte que age diretamente no mundo dos homens, uma vez que Deus permanece no exílio da sua infinita mente prostrada entre o espaço e tempo, Satan o 'outro deus', o das coisas possíveis age neste mundo pois invariavelmente, uma vez que o ser humano tende sempre ao mal, e Deus já não tem mais o poder para intervir nisso, é consequência direta que o mundo se torne cada vez mais degradado. Cabe ao ser humano como ponto de equilíbrio entre essas duas forças primordiais decidir o seu caminho: Almejar a santidade junto a Deus e resgata-lo do seu exílio ou o reino das possibilidades da vida terrena ao lado de Satan. Todavia a Trilogia encerra com o tétrico alerta a uma terceira possibilidade que ocasionalmente surge entre esses dois caminhos: O materialismo e a descrença. Nesses casos satanistas e cristãos convergem drasticamente pois o que é dito de maneira poética e trágica nos últimos versos da faixa de encerramento de Paracletus poderia ser dito por qualquer católico que se preze acerca da descrença absoluta:

"Vós procurastes a potencia, clamou por justiça, esplendor, vós procurastes por amor! Todavia eis sua falha, eis o poço, eis o seu poço, cujo nome... É silêncio."

E assim tudo se encerra. Toda a filosofia da banda pode ser resumida em um gritante manifesto contra a mediocridade da era moderna e este é evidentemente um mal estar compartilhado também por muitos cristãos que não se renderam a Pós-Modernidade. Por isso coloquei a famosa sátira de Lautreamont como epigrafe neste artigo, não sabemos o quanto de humor negro existe na banda mas uma coisa é bastante clara: Todo e qualquer insatisfeito com o mundo tem mais a ver com outros insatisfeitos do que com seres resignados, "eu sozinho contra a humanidade" é um grito de revolta para legiões e não um mero grito individual. Pode parecer que a parte musical neste artigo ficou suprimida mas foi necessário ainda que se trate de uma das bandas mais musicalmente formidáveis da atualidade e seja altamente recomendável. É irônica a conclusão que tiro de tudo isso mas não é exagero dizer que quando Satan se vê refletido em um espelho ele só consegue ver a imagem de Deus fato o qual comprovei empiricamente justamente quando ouvir Deathspell Omega.








sexta-feira, 12 de julho de 2013

Considerações sobre o Black Metal Frances

"CANTEI SOBRE O CAOS E A NOITE ETERNA,
ENSINADO PELA MUSA DIVINA A ME AVENTURAR
NO DECLÍNIO SOMBRIO, E SUBIR PARA 
REASCENDER"

JOHN MILTON / PARAÍSO PERDIDO






Em seu celebre poema épico, o autor inglês John Milton nos trás a queda de Lucifer do paraíso e sua arquitetura do inferno o qual ele usaria para se tornar o príncipe eterno de toda a desolação. Em uma de suas mais celebres passagens, a postada acima, Lucifer ao cair no inferno diz que pelo menos ali seria livre e não um escravo do seu criador primordial e assim declama tais versos e com suas asas gigantescas parte ensandecido em busca da sua vingança contra a humanidade, motivo de toda a divergência celestial. Basicamente esse é o sentimento que permeia toda a essência do avantão BM francês a qual Milton já havia colocado em sua poderosa poesia e que no amanhecer do fim dos tempos que se revelou a era moderna se tornou como muitos outros conhecimentos o combustível para perpetuar o massacre, em especial o massacre francês. Para quem conhece a fundo o ethos da cultura deste pais, não é algo de se espantar tanto, desde o inicio do século XXI a Europa Ocidental vem atravessando uma crise que só faz agravar e fragilizar sua situação no cenário mundial, suas bases espirituais foram totalmente perdidas e o pouco que resta esta sendo dizimado por elementos estranhos a civilização europeia.

Blvt Avs Nord
O declínio conduz ao desespero, que é o cenário perfeito para que a semente do ódio que é a base de tudo no Black Metal possa florescer como se deve. A razão de ter surgido na França e não em outro lugar é que eles souberam captar esse desespero e estão canalizando isso com o darkside da própria tradição da sua nação. Recordem-se sempre que não existe pais da Europa ocidental com maior vastidão hermética que eles, é oriundo de lá o satanismo de Baudelarie e a marginalidade boemia do Simbolismo como um todo, o decadentismo, o anarquismo de Proudhon e Tailhade, o Teatro da Crueldade de Antonin Artaud, isso sem contar a vasta tradição do pais em alquimia. O próprio Cristianismo francês é cravejado de sombras por todos os lados pois o Palais de Papes construído a mando do Rei da França para sequestrar o papado mais corrupto da história para beneficio próprio ainda esta lá, imponente para quem quiser ver na sinistríssima cidade de Avignon. Friso também que foi lá que múltiplas heresias fervilharam durante toda a idade média, sendo o exemplo mais latente, os Cataros. É óbvio que mais dia menos dia isso iria vir a tona e que quando viesse não iria vir para brincar. Finalmente veio, e implodiu no underground musical da França num momento de intensa crise que castiga a Europa e assim aos poucos a França um pais até então ignorado se tornou o grande bastião da moralidade do Black Metal.

Deathspell Omega
Na época corrente podemos facilmente dizer que as bandas da cena não só evoluíram a proposta original como a ampliaram e em ultima instancia tornaram totalmente obsoleto, mera poeira no vento tudo que precedeu a revolução perpetuada pelo French Black Metal. Tudo que falta no estilo original, sobra na maioria das bandas desse pais: Onde havia rawzeira deliberadamente tosca, existe agora uma execução impecável, músicos de primeiro time se prestando  a tornar um estilo realmente aterrador, onde havia barulho, agora existe peso, real peso, distorções, reviravoltas, verdadeiros ciclones de caos na aurora de tempos infernais, um testemunho ocular da degradação de nossos tempos e por fim, onde só havia blasfêmia tola, finalmente deram um tratamento a nivel teológico e metafisico a tópicos já surrados e mutilados de todas as formas possíveis tais como o Satanismo e o Hermetismo, que também passou por uma verdadeira reciclagem espiritual nas mãos das bandas francesas.

Aluk Todolo
Assim sendo, esse novo Black Metal conseguiu algo que até então eu achava impossível vendo o cirquinho que o estilo havia se tornado: Apesar de ser claramente um fruto do ódio e do niilismo da modernidade movido por sede de vingança e ódio imensurável, tal como o messias Lúcifer de Milton o Black Metal Frances tem demonstrado ainda que não totalmente consciente dos seus próprios atos ter a coragem necessária para pegar no martelo e como um juiz severo condenar a morte a o mundo moderno e suas maledicências. Talvez por essa razão um tradicionalista com acentuado traço cristão como eu possa tranquilamente sentar aqui hoje e resenhar algumas das bandas mais malditas do universo tais como Blut Aud Nord, Deathspell Omega e Aluk Todolo sem nada a temer. Uma vez que elas condenam a mediocridade moderna e eu também, estamos razoavelmente próximos. Por fim, basta me recordar do tom cristão esotérico da obra de Milton para descrever Satan e seu périplo sobre a Terra para entender que tais contrastes sinalizam um cenário teológico muito mais vasto e complexo que os velhos antagonismos entre Deus e o Diabo. Dito isso, podemos ir as bandas...


POR: Gabriel Von Kreisler.